segunda-feira, 17 de setembro de 2012


A minha sorte

Ontem antes de dormir joguei minha sorte pela janela, dei um suspiro e disse bem alto “Vai!”,  e ela foi. Deitei na cama e rezei baixinho “Deus cuida dela, vai com ela. Faz alguém achar, faz alguém cuidar, faz alguém se importar”. Depois disso não tive mais notícias, o coração na mão, o pensamento longe, e meu corpo agitado não conseguiu dormir. Acordei passando mal, dor de cabeça, tontura, fome, cansaço, medo. Esse último é o que doía mais. Será que ela voltaria? E se voltasse, seria sozinha? Não sabia, então preferi não levantar da cama. Talvez por volta de meio dia a sorte estivesse ali, pronta pra ser minha companheira na hora do almoço. Sei que quando eu a joguei da janela, das duas uma: ou voltava pra mim, ou alguém tinha achado. Então pensei, será mesmo minha esta sorte, ou será ela a sorte de alguém?
Levantei para almoçar, nada dela. Nem email, nem carta, telefonema então? Nem pensar.     
Notícia ruim chega rápido eu disse pra mim mesma, então fui tomar um banho. Eu não estava me sentindo bem, mas precisei ir na rua resolver uns assuntos. Até que lá pelas 17h eu avistei uma sorveteria do outro lado da rua, e tive que ir até lá. Dentre o trânsito caótico desse horário, eu tentando atravessar a rua na faixa de pedestres lotada de gente com pressa, senti algo batendo em meu rosto. Não deu tempo nem de piscar. Parei no meio da rua, abaixei e peguei. Era ela. Voltou pra mim. Ela estava triste, eu também. Guardei na bolsa e fui comprar meu sorvete.

Eu ainda sorri, conversei com pessoas, consegui dizer “obrigado”. Disse até “por favor”, segui em frente. Cheguei em casa, sentei-me no sofá e tirei ela da bolsa. Ela chorava, doía. Dava pra ver que doía. Eu disse que não queria saber, já sabia demais. O que eu sei é que hoje ninguém encontrou a minha sorte, ou talvez ninguém encontrou a própria sorte. Fiquei calada por um tempo.
Até que ela me disse baixinho: Deixa eu descansar um pouco, e depois me solta de novo. Eu sorri e respondi: não. Hoje você vai dormir comigo. Eu, você e essa dor. Eu, você e tudo o que você viu, e procurou. Você e eu. Só.
Impossível não ficar triste, a tristeza taí o tempo todo na vida da gente. Tá no leite que a gente derruba de manhã na roupa nova, tá no trânsito que te faz atrasar no primeiro dia de trabalho, tá no chefe mal educado que faz uma grosseria com você, tá na amiga que briga com o namorado e desconta em você, tá no telefonema não atendido, nos planos fracassados, na calça jeans que não te serve mais. E a gente chora, e rói as unhas, e come um barra de chocolate, e chora de novo. A gente quer sumir, quer viajar, quer mudar o número do celular, quer engolir certas palavras e voltar no tempo, quer enfiar a mão dentro do coração e arrancar tudo o que está lá mas não devia. As pessoas vivem dizendo (inclusive eu), que a vida ta ai pra ser vivida, que devemos arriscar, etc. Eu sempre falo isso, mas hoje sei que quando falo isso podem apostar que estou tão de bom humor que devo esquecer o quanto dói quando as coisas não são como a gente quer. Quem não joga não ganha, ok. Mas também não perde nada.
Talvez daqui uns dias eu jogue minha sorte por ai de novo, hoje não. Hoje ela é minha. Hoje tá doendo. 

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